Porque existe o feminismo negro

O feminismo negro não é contrário ao feminismo. Ele é apenas um recorte, uma parte que se faz muito necessária para nós mulheres negras.
Para entender a importância do feminismo negro, precisamos entender um pouco sobre a erotização e objetificação da mulher negra. E para entender essas coisas temos que voltar um pouco na história e perceber como a escravidão influenciou a realidade das mulheres negras atualmente.
Que as formas e aparências de pessoas brancas e negras é diferente, isso todos sabem. E se torna ainda mais nítido ao se fazer comparações entre mulheres. As negras são mais voluptuosas, possuem mais curvas, o corpo mais avantajado, bumbum grande, pernas grossas… Esses traços faziam com que as negras despertassem o interesse dos homens brancos na época da escravidão. Como essas mulheres eram escravas, tinham de se submeter a todo tipo de ordem de seus senhores, elas sofriam assédios e estupros sem poderem se opor ou se defender, pois eles eram seus donos.
Quando a escravidão foi abolida, não houve nenhum projeto reparador para os negros livres, tanto que alguns permaneceram trabalhando nas fazendas. Para as escravas livres que não tinham desejo de continuar nas fazendas, existiam, basicamente, duas profissões: empregada doméstica e prostituta.
Além de toda a realidade da escravidão, onde brancos se colocavam como superiores aos negros, os explorando de todas as formas possíveis, as negras tiveram que continuar se submetendo aos brancos com as oportunidades de emprego que elas tinham.
Quando empregadas domésticas, tinham de se submeter às vontades das sinhás que não haviam entendido ainda que a escravidão havia acabado. Os ricos brancos continuavam se sentindo superiores aos negros e mesmo que pagassem salário, pensavam que podiam explorar deles como antes o faziam.
Quando prostitutas, eram mulheres usadas como objetos sexuais e tinham de se submeter a todo tipo de desejo sujo dos homens brancos.
Infelizmente, essas ideias perduram intrínsecas até hoje. A imagem de negras está geralmente atrelada a estas duas profissões. E mesmo que de forma inconsciente, homens ainda atrelam a imagem das negras a símbolos sexuais. Exemplo disso são expressões como “cor do pecado”. Por que minha cor seria um pecado? Ou o fato da Globeleza (grande símbolo do nosso carnaval) ser sempre uma mulher morena, sambando nua e sendo transmitida em horário livre na nossa TV aberta, pra que nossas crianças compreendam desde cedo que o corpo de uma mulher negra, deve sim, ser sexualizado.
Na nossa sociedade machista, as mulheres são inferiores aos homes. Mas na nossa sociedade racista e machista, mulheres negras são inferiores aos homens e às mulheres brancas.
A luta das feministas de modo geral, é por uma igualdade de gênero. As feministas negras lutam pra que haja uma igualdade racial dentro do gênero feminino, para que assim, possamos lutar por uma igualdade de gênero.

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Sobre o feminismo

Antes de tudo deve-se esclarecer o que é o movimento feminista. O movimento feminista NÃO é o contrário do machismo. O machismo não é um movimento. É uma cultura. Somos condicionados a pensar na imagem do homem como líder, viril e forte. O machismo prega a superioridade do homem sobre as mulheres, nos colocando como seres submissos e que “servem apenas para atender seus pedidos e desejos”. Enquanto isso, o feminismo prega que homens e mulheres devem ter direitos iguais.
Por ser um movimento que vai contra as opiniões que já vem prontas para consumirmos, o feminismo encontra vários obstáculos pelo caminho.
Há mulheres que não entendem o movimento e pensam que feministas odeiam os homens. Mas nós não odiamos homens (pelo contrário). Nós só aprendemos que eles não são nossa prioridade, nossa prioridade somos nós mesmas. Primeiro praticamos amor próprio para depois praticar amor a outras pessoas, aos homens.
Há aqueles que pensam que feminismo não passa de “mimimi”. Que somos mulheres reclamando sem motivo. Mas estamos reclamando por sermos tão inescrupulosamente assediadas, violentadas, desrespeitadas, agredidas e assassinadas, e a sociedade continuar a achar que isto é algo normal. Porque não é normal.
Nós mulheres feministas compreendemos que a felicidade não está condicionada APENAS a um bom casamento, filhos e um lar bem estruturado. Aprendemos a encontrar a felicidade onde queremos. Eu posso ser uma mulher livre para fazer o quiser da minha vida. Posso sim querer ter uma linda família, mas também posso ser uma workaholic que vive em função do trabalho, assim como posso ser uma viajante sem lugar fixo. Essa é a beleza do feminismo, deixar as mulheres livres para que elas tenham poder sobre sua própria vida.
Porque mulher pode. Mulher pode sim. Se tem uma coisa que mulher pode, é poder.

Preciso falar sobre o feminismo

Pra mim é quase impossível iniciar um “papo cabeça” com outra mulher e não agregar a esta conversa alguns conceitos sobre feminismo. E entre conversas aqui e ali, já ouvi as mais diversas opiniões sobre o tema. Alguns acham que não passa de um movimento modinha e que logo passa. Outros que nao faz sentido e que é desnecessário. Mas eu quero falar sobre o feminismo e o que ele representa pra mim.
Lembro de quando tive consciência do que era o movimento feminista pela primeira vez. E eu achei ridículo. “Qual a necessidade dessas mulheres serem assim? Mulher tem que ser meiga e feminina.” Mas o tempo passa, fui crescendo e vi que eu queria ter uma voz ativa, queria que meus pensamentos fossem ouvidos. E do “desnessário” o feminismo passou pra “viável em algumas discussões”. Se os feministas debatem sobre a liberdade da mulher, e eu, mulher, quero ser livre, creio que seria conveniente conhecer isso um pouco mais a fundo.

Quando eu já sabia a importância do feminismo na nossa sociedade, ainda falava coisas como “sou simpatizante com o feminismo, mas não sou feminista”. Ainda não entendo o que eu queria falar com isso. Seria medo de ser taxada de louca como eu mesmo taxava as feministas antes? Talvez.

Mas vejam só, não há motivo pra se envergonhar de ser feminista. Ou temer por ser chamada de louca e coisas afins. Porque loucas nós seríamos se não lutássemos pelos nossos direitos. Vergonha seria aceitar não ter uma voz e um papel ativos na sociedade. Vergonha é aceitar que nossos direitos são inferiores aos dos homens. Vergonha é ter de aceitar calada cada assédio que passamos todos os dias só porque “somos mulheres”.  Vergonha é ser taxada de sexo frágil, enquanto, na realidade aceitamos por tanto tempo essa submissão aos homens, e agora lutamos fortemente todos os dias em busca de representatividade, respeito e liberdade.